Alimentos Disfuncionais: a beleza interior devorada

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Não aguento quando os “nutricionismos” começam a ser vendidos como a solução dos seus problemas com o peso e a aparência.

É tanta hashtag junto das fotos de comida “fitness”, que fico até me perguntando se naquele prato tem comida mesmo depois de tanto #glutenfree #sugarfree #carbfree #baixacaloria e dos nomes impronunciáveis da lista de ingredientes dos shakes.

Ultimamente tenho me deparado cada vez com a deturpação do conceito de alimentação funcional. Há vários anos, a ideia consistia simplesmente em como usar a combinação de certos alimentos para conseguir o máximo de absorção de nutrientes. Este efeito ocorre com os alimentos in natura, ou com mínimo de processamento, como no caso do tomate e a disponibilidade maior de licopeno depois de aquecido.

Só que a indústria alimentícia e farmacêutica, que não é boba nem nada, resolveu pegar o conceito e a terminologia, e começou a fabricar “alimentos funcionais”, que são produtos alimentícios altamente processados, em sua maioria, que, por conter parte de certos ingredientes ditos milagrosos, prometem mais benefícios para uma corpo esbelto, uma aparência jovem e filhos fortes e sadios que político em época de eleição.

Podemos começar com coisas simples, como os leites e biscoitos fortificados com vitaminas e minerais, a boa e velha barrinha de cereais, e o iogurte que promete mulheres felizes com barriguinhas sorridentes dançando “no ritmo”.

Vou dar o mérito de que a propaganda do iogurte colocou a palavra lactobacilos no vocabulário da tia com prisão de ventre, mas esse é o único benefício nessa história. O que me revolta, e não é nem como profissional de saúde, e sim como uma antiga sofredora desse mal, é que só era informada do suposto benefício, ou meu dinheiro de volta.

Só depois de achar que tinha alguma coisa de errada comigo porque o iogurte só fazia milagre na bonita atriz da TV, e de estudar um monte, é que descobri que tem é muita coisa errada nessa história.

A começar pelo simples fato de que alimentos industrializados não são saudáveis, ponto. O processo de industrialização retira nutrientes, e acrescenta substâncias químicas que nosso corpo não reconhece como comida. Ou você acha coincidência esse surto de gente com intolerância a leite, glúten, com diabetes e doenças autoimunes, e por aí vai?

Inclusive as vitaminas adicionadas não são reconhecidas pelo organismo como nutrientes, ou seja, além de não promoverem os benefícios prometidos, elas podem até causar problemas. E tudo que parece baseado em ciência, na grande maioria das vezes, vem de pesquisas encomendadas pelas próprias indústrias.

E esse ainda nem é o lado mais perverso da história. Você já reparou que a maioria da publicidade desses produtos é voltada para mulheres, baseadas em suas maiores inseguranças? Comece a prestar atenção.

A do iogurte promete que “você vai se sentir melhor em sua roupa”. A de nutricosmético vende que você vai virar uma mulher branca, magra, de olhos claros, de 20 anos. A do biscoito recheado garante a nutrição que seu filho precisa.

Que mundo maluco é esse que vivemos que temos que mudar nosso corpo para caber nas roupas, que temos que manter uma aparência de 20 até morrer com 90, e que um produto alimentício é considerado fonte de nutrição, sendo que, dos 23 ingredientes da lista, não conseguimos reconhecer nenhum como vindo diretamente de uma planta ou de um animal?   

Então antes de abrir a garrafa de água vitaminada e de energético natureba com 532 superalimentos que contém todos os nutrientes sem as “inconvenientes calorias”, o pacote de jujuba “estica-cara”, o shake ou cápsula “enxuga barriga”, gostaria que você pensasse duas questões básicas:

E se eu comprasse o alimento in natura de onde o benefício foi descoberto? 

E se eu decidisse investir no meu amor próprio e na minha autoconfiança?

Aposto que você iria gastar bem menos dinheiro, tempo e saúde.

Convido você a fazer duas experiências comigo. A primeira é passar a comer mais comida de verdade, que não precisa de propaganda para dizer que funciona, porque isso já foi provado pela natureza por milhões de anos. A segunda é de observar as emoções que surgem em você a partir das propagandas que vendem aceitação e autoestima, e tomar consciência de como elas perversamente foram criadas para alimentar nossas inseguranças, e não comprar no automático.

Quero saber se você percebe seu corpo e sua mente mais leves e livres de verdade, ao colocar isso em prática, como mostram as moças que atuam no anúncio do iogurte.

Publicado em: Não aguento quando

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