Ciclo Menstrual

Confissões de uma viciada em autoconhecimento

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Como lidar com a síndrome do “eu não sou o suficiente”

Tenho obsessão por algumas coisas na vida, como comida gostosa, viajar, séries de TV, e autoconhecimento. A todas elas dedico um tempo considerável. Passo horas procurando por novos ingredientes no mercado e experimentando novos restaurantes. Não passo mais que 3 meses sem entrar em um avião. Assisto religiosamente desde o episódio mais recente da nova série que acaba de estrear, como posso recitar qualquer episódio de Friends. E é muito comum eu estar fazendo uns 5 cursos e terapias ao mesmo tempo, experimentar quase tudo que as pessoas me falam que foi a solução dos problemas delas, ou ainda estar com mais de 10 livros na mesa de cabeceira (fora a inúmeras abas do meu browser com textos e vídeos).

Aprendi essa mania de me conhecer cada vez mais profundamente com minha mãe, que nos incentivou a todos na família a usar esses recursos e pessoas maravilhosas que dedicam a vida a apoiar outras pessoas a se descobrirem e serem a melhor versão de si mesmas. Entre outros inúmeros ganhos que tive com isso, foi justamente transformar meu relacionamento com ela que eu mais estimo.

Ao mesmo tempo, percebo que essa mania é alimentada pelo monstrinho do “eu não sou suficiente”. Tem sempre alguma coisa mais que tenho que fazer, uma comida ou um restaurante que todo mundo já experimentou menos eu, um local exótico no Pacífico Sul que não tenho tempo nem dinheiro para ir, aquele novo programa de zumbis que eu deveria gostar porque todo mundo gosta mas eu não tenho estômago pra ver, aquela nova técnica de reprogramação mental e alinhamento energético que combinado com uma alimentação perfeita vai me fazer tão feliz, poderosa e invencível quanto o Buda vestido de Mulher-Maravilha tomando água de coco numa praia do Ceará.

Essa busca incessante por mais e mais me trouxe até aqui, e devo a isso estar vivendo a melhor versão da minha vida, até o momento, com perspectivas de ser cada vez melhor.

Porém, essa vozinha do ego que me diz que não sou suficiente me leva sempre a pensar que a solução dos meus problemas está fora de mim.

E vamos combinar que é uma armadilha fácil de cair essa de que alguém vai me salvar de mim mesma, ou que alguém vai me concertar e tudo será flores depois disso, ou colocar a responsabilidade no outro pela minha felicidade, ou ainda de me anestesiar com comida, viagens, TV ou sua droga de escolha para não ouvir essa voz irritante repetindo coisas que eu não quero ouvir.

Volta e meia, esse fantasminha da autoexigência vem me assombrar, e ela se disfarça de diversas coisas, como me comprometer com excesso de pessoas/cursos/pessoas/atividades e fazer muito além do que me é pedido, virar uma workaholic ou ficar prostrada na cama sem conseguir fazer nada, me irritar ou ficar triste com comentários de outras pessoas sobre o que eu deveria ser/fazer, ter pensamentos recorrentes de que sou um fracasso, de que não tem propósito buscar realizar as coisas que desejo e sonho, de que é mais fácil desistir, de que vou ter sempre uma peça faltando e tenho muitos defeitos, de que…

Neste exato momento, essa programação mental está aqui me dizendo que esse texto não faz sentido, e que eu deveria ter me planejado melhor para deixar ele programado com antecedência, pois assim tudo estaria como o que dizem ser uma empreendedora bem organizada e bem sucedida, e se eu fosse mais comprometida e disciplinada, estaria ganhando rios de dinheiro, com milhares de homens aos meus pés, e todos os confortos e luxos que preciso pra ser feliz.

A questão principal aqui é que a autoexigência muitas vezes nos leva a acreditar que existe um estado de perfeição na vida, e que, quando não o atingimos e ficamos lá pra sempre, estamos falhando a todo momento. E mesmo tendo consciência de que esse estado de perfeição não existe, e de que felicidade não tem nada a ver com ele, mais uma vez a autoexigência ataca me dizendo que eu deveria ser mais sábia e saber o que fazer antes mesmo deste estado mental chegar, e fico com raiva de mim mesma porque, mesmo depois de tanto curso e livro de autoconhecimento, eu ainda me deixo arrastar por esses sentimentos.

A única solução que encontrei para esse problema: continuar em frente assim mesmo. Da melhor forma que eu conseguir.

Caindo, levantando. Falhando e acertando. Buscando respostas dentro de mim, buscando suporte dos outros. Morrendo de medo, e morrendo de rir do ego. Comendo, viajando, assistindo TV, e continuando na jornada de me conhecer cada vez mais, e decidindo fazer cada vez menos, simplificando as coisas. Aceitando, cada dia mais um pouco, que sou tudo isso ao mesmo tempo. Se amando, mesmo assim. Que nenhuma parte dessas experiências me fazem uma pessoa inerentemente pior ou melhor, e sim a minha escolha do que quero cultivar a partir delas.

Se conhecer cada dia mais para se amar cada dia mais.

Se conhecer cada dia mais para se amar cada dia mais.

“Nós podemos viajar um longo caminho e fazer muitas coisas diferentes, mas nossa felicidade mais profunda não nasce de acumular experiências. Ela nasce de abrir mão do que é desnecessário, e saber que estamos sempre em casa. A verdadeira felicidade pode não estão tão longe, mas requer uma mudança radical de ponto de vista de onde encontrá-la.
Nós procuramos por aquilo que é estável, imutável, e seguro, mas a plena atenção nos ensina que esta busca não será bem sucedida. Tudo na vida muda. O caminho para a felicidade é aceitar e integrar completamente todos os aspectos de nossa experiência.
A diferença entre ser miserável ou feliz depende no que nós fazemos com a nossa atenção.
Se olharmos com cuidado, nós percebemos que depois de nossas necessidades básicas serem atendidas, o que nós realmente queremos são certos estados mentais. De fato, quando falamos sobre ter muito dinheiro, nós estamos falando, na verdade, de um estado mental como segurança ou poder ou liberdade. Mesmo quando a pessoa tem muito dinheiro, ela pode não ter esse estado mental. Ela pode não se sentir poderosa ou segura.”
~ Sharon Salzberg
 
Imagens: theoslotimes.com/cdn.sheknows.com

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Aqui temos 4 comentários. Adicionar.

  1. Eu li seu texto sentindo os olhos marejarem daquela forma que só acontece quando algo dentro de nós grita muito forte com a identificação, com a certeza de nos encontrarmos refletidas em outra pessoa.

    Também me sinto uma viciada em auto conhecimento, tenho alguma bagagem quanto a isso, mas o que bate forte é o: “qual será a técnica que vai me salvar? qual vai ser o marco da minha vida e a mudança para pessoa que quero ser?” mas seu texto trouxe a certeza de que isso não existe rsrs… e eu continuarei procurando essas experiências, mas com outra visão. Pensando sempre que aquilo me mostrará um pedacinho de mim e, talvez, seja nesse pedacinho e não na experiência que eu tenha de focar. (não sei se isso fez muito sentido escrito, na minha cabeça tá fazendo rsrsrs)

    Gratidão!

    • Melissa Setubal

      Roberta, fez sim, muito sentido 🙂 Continue explorando a si mesma, se beneficiando de todas essas experiências, com essa certeza de que você não precisa ser salva e que já é a pessoa que quer ser. No que eu puder te apoiar para te lembrar disso nesses momentos de dúvida, conte comigo 😉
      Saúde, amor e gratidão!

  2. Milena

    Escreveu pra mim?
    beijos!

    • Melissa Setubal

      Somos farinha do mesmo saco, não é mesmo? 🙂 Beijos!

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