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Em terra de ghosting, quem aparece é rei

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Como lidar com o desaparecimento repentino das pessoas e entender porque nós fazemos isso uns com os outros cada vez mais

Tenho uma amiga que tem, por costume, me perguntar sempre sobre como anda cada uma das pessoas, coisas ou situações sobre as quais falo com ela. Pode ser sobre um projeto que citei que me parece promissor, uma pessoa que me parece interessante romanticamente, um situação planejada para o futuro, e por aí vai. Se eu falei apenas uma vez sobre o assunto, ela, mesmo muitos dias depois, vai me perguntar como vai aquilo com uma empolgação na voz que me faz sentir a pessoa mais importante e com a vida mais interessante do mundo.

Ultimamente, várias vezes me vi desconfortável ao conversar com ela. Me vi pedindo para ela não me perguntar mais sobre a pessoa que eu estava interessada, me percebi incomodada com ela comentando sobre um pequeno desenrolar de um projeto meu, me encontrei com receio até de compartilhar certas coisas banais porque sei que ela vai me perguntar sobre aquilo depois. Eu quem conto basicamente tudo da minha vida pra ela.

Um pouco de auto-observação me fez encontrar a razão por trás desses meus comportamentos com ela: eu to me cagando de medo de continuar empolgada com o que acontece na minha vida porque as pessoas parecem desaparecer cada vez mais rápido, sem nem deixar vestígios, como um fantasma, ou na nova gíria, fazendo o ghosting. E nossas conversas parecem um desfile de decepções e vazios e corações partidos.

Eu sei, tempos de pós-modernidade líquida, yada yada yada… Se alguém vier citar Baumman nos comentários eu juro que vou ter um chilique e jogar todos os livros de budismo sobre desapego em cima da sua cabeça. Porque uma coisa é estar ciente da impermanência da vida. Outra coisa é que, sinceramente, estamos usando esses conceitos do desapego e da aceleração da sociedade como justificativa para má-educação e covardia – e, oh yeah, eu incluída aí nessa meiuca (leia mais aqui).

ghosting 1

E eu apenas… desapareci. E eles nunca mais me viram novamente.

Não sabemos como nos sentimos, não sabemos o que fazer, não sabemos dizer não, mais fácil dar uma sumida, né? Anestesiamos o desconfortinho do nosso ego confuso e não paramos para pensar que deixar alguém de stand by é uma das situações mais desconfortáveis em que podemos colocar a outra pessoa. Eu sei, tem um excesso de informações, estímulos, tem horas que os emails e mensagens ficam para trás, que prometemos alguma coisa e ela foge da nossa cabeça, que na hora que falamos algo estamos sentindo uma coisa e pouco tempo depois as circunstâncias fazem a gente mudar de ideia.

Mas quando eu me pego começando a ficar acostumada a ter essas conversas com essa minha amiga “Fulaninho, ah, você sabe né, tem demorado cada vez mais para responder mensagens. A última que mandei nem me respondeu. Normal, né?”, ou “Ciclaninha finalmente me respondeu que tá toda enrolada agora, meio confusa com uns projetos, mas que está empolgada e volta a falar comigo quando puder.” e nunca mais, ou “Beltrano desmarcou comigo em cima da hora. Até pediu mil desculpas e disse que vai remarcar. Uma semana depois, nem vestígios”. Incluído aí o bom e velho comentário na rede social “To com saudades. Vamos nos ver.”, pergunto onde e quando, e nada de marcar o dia e local para realmente se ver.

Penso que os comportamentos que estou descrevendo acima dizem de um sintoma mais grave. Estamos pouco engajados na conexão com outras pessoas porque estamos muito pouco conectadas com os próprios sentimentos. Temos pavor deles. Não conseguimos passar um minutinho com o menor desconforto. Nem o de simplesmente dizer um não. E desaparecer da frente da pessoa que nos “provoca” esse desconforto (que talvez nem tenhamos consciência) é a solução mais rápida e menos trabalhosa.

Provoca entre aspas, porque pode parecer que foi a pessoa quem apertou aquele nosso botão, quando, na verdade, ele tá ali super exposto para qualquer um que esbarrar acioná-lo – justamente por conta da nossa falta de investimento em conhecermos nossos mecanismos internos. Aí, inconscientemente, a gente culpa aquela pessoa pelo nosso desconforto com a gente mesma, e voilá, desaparecemos da vida dela.

ghosting 2

Olha a incoerência: estamos cada vez mais buscando novos estímulos, novas aventuras, novas formas de encontrarmos a felicidade – e estamos justamente nos perdendo do que mais perto pode nos oferecer isso, que é nos conectarmos mais profundamente com outras pessoas. Uma viagem que nos leva justamente a oportunidade de nos conectarmos mais profundamente com a gente mesma.

Claro, nem todo mundo que passa na nossa vida tem que ficar por muito tempo ou estabelecer um vínculo duradouro ou perpetuar o contato só porque ele foi estabelecido. Mas vamos nos responsabilizar um pouco mais sobre nosso próprio comportamento ao invés de ficar justificando esses nossos desaparecimentos com os vagos “estou confusa”, “está muito corrido”, “estou enrolado com uns projetos”, “estou passando por muitas dificuldades no momento” ou o completo silêncio sepulcral, com pelo menos frases e comportamentos um pouco mais adultos.

Não importando o nível de afeição ou conexão com a pessoa em questão, temos que considerar que se houve algum tipo de interação, o mínimo de cortesia que podemos ter é a empatia de que aquela pessoa, de alguma forma, está esperando pela gente e algum tipo de satisfação precisamos dar – e num passo mais maduro ter a integridade de ser sincera. Inclusive de admitir para si mesma: me caguei de medo sim e decidi sair pela tangente (leia mais aqui).

Não precisamos transformar a conversa em um desfile de justificativas ou sessão de terapia, vai? Não precisamos jogar em cima da pessoa todos os detalhes da nossa vida super ocupada e dos nossos mecanismos internos. Isso é o que a gente tem que fazer com a gente mesma num passo anterior a se comunicar com a pessoa. Ficar presente para os sentimentos que nos fazem querer nos distanciar dessa pessoa. Bem como para os meus comportamentos que fazem muitas pessoas querem se distanciar de mim.

Eu sei, por exemplo, que tendo a me distanciar rapidinho de pessoas que me deixam agitada ou que detecto algum tipo de incongruência em seu comportamento. E que costumo afastar muitas pessoas de mim porque eu pergunto demais o porquê dos seus comportamentos e porque exijo presença delas. Como eu sei disso? Me observando e me estudando por anos. Observando quem fica e quem vai embora, os padrões que se repetem. Assim, vou ficando mais capaz de mudar algum comportamento que eu escolha, lidar melhor com os desconfortos e agir com educação e consideração em relação aos outros e a me curar melhor das decepções com os outros. Uma relação de cada vez.

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Eu apenas queria que você soubesse que eu notei que você desapareceu.

E por que, mesmo “evoluídos” para a tal modernidade líquida, ainda nos irrita e nos entristece esse comportamento de ghosting? Porque continuamos a ter esse desejo profundo de nos sentirmos conectadas com as pessoas de forma profunda porque, supresa, continuamos seres humanos. Oh! deusnoslivre dessa maldição de buscar conexões significativas.

E se a gente escolhesse, ao invés de ficar com medo de criar intimidade ou de se apegar, se lembrar de que somos todos seres humanos com fome de amor e atenção e que vamos continuar correndo atrás disso, mesmo que a gente se esforce para não se conectar? Ao invés de desaparecer para os outros, aparecer para nossos próprios medos e receios, ficar presentes para eles até que eles não nos assustem mais (tanto assim)? E se a gente escolhesse sermos honestas com nossos próprios sentimentos e sermos honestas para os sentimentos em relação às outras pessoas (leia mais aqui)? O que realmente aconteceria? Será que só sou eu que penso assim, ou o mundo seria um pouco mais fácil e gostoso de se viver?

O que eu sei é que meu mundo fica mais fácil e mais gostoso de se viver pelas pessoas que aparecem. E continuam a aparecendo de novo e de novo. Mesmo quando a vida fica difícil e confusa, pra ambas as pessoas. Como essa minha amiga aí de quem falei no começo. O bicho pega, eu fico chata, ela fica chata, as circunstâncias da vida teimam em nos fazer sumir, a gente aperta uns botões uma da outra, mas a gente sempre responde a mensagem que a outra manda, nem que seja com aquele tímido emoji de sorriso, que nele carrega “eu não sei exatamente o que dizer agora, mas reconheço que você é uma pessoa com quem eu me importo”.

Publicado em: Superela

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Aqui temos 2 comentários. Adicionar.

  1. Oi, Melissa! Muito bom o texto. Vou começar a avaliar os meus sumiços para saber o que dispara isso em mim. O curioso é que eu cheguei ao seu blog em uma busca justamente para retomar um contato de quem “sumi” há mais de um ano. Obrigada pelo texto!

    • Melissa Setubal

      Que demais Carina 🙂

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