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Eu choro fazendo yoga na TPM

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Como usar a prática de asanas para lidar com as emoções da fase pré-menstrual

Eu choro por qualquer coisa. Meu apelido de infância era “manteiga derretida”. Eu choro de tristeza, de alegria, de raiva, de amor. As minhas emoções tem essa mania de se materializem em forma de lágrimas. Durante boa parte da minha vida, fui levada a acreditar que isso era uma coisa ruim, que havia alguma coisa errada comigo por eu ser assim.

No meu treinamento para instrutora de yoga, há alguns anos atrás, lembro que o mestre era uma figura muito imponente, forte, e até enigmática, pois não conseguia saber exatamente o que estava por trás daquele semblante impávido. Eu queria ser como ele. Não apenas fazer os asanas mais acrobáticos que contorcionista de circo (que até hoje não consigo fazer, e já estou resignada que meu corpo não veio fazer isso nessa existência), mas ter esse (aparente) autocontrole emocional que não treme diante de nada.

Quantas vezes eu começava a chorar depois da aula, seja de dor por ultrapassar meus limites, seja por me sentir incompetente por não conseguir sem flexível e forte como as outras aulas, seja porque a postura desencadeava uma reação emocional.

Sim, asanas podem nos colocar em contato e nos ajudar a lidar com as nossas emoções. É uma forma extremamente eficiente de digerir e processar sentimentos, sem ficar presa nas racionalizações analíticas da mente.

Anos depois, na minha prática pessoal, comecei a frequentar a aula voltada para mulheres. Lembro-me que no primeiro dia, a professora passou uns exercícios de contração abdominal que, no segundo que comecei a tentar fazer, eu percebi que, das 108 que ela havia instruído fazer, eu não conseguiria chegar nem na décima. A garganta travou, a mente entrou numa espiral descendente de autojulgamento, as lágrimas tentaram descer. E eu fiquei pensando “Eu não posso chorar aqui na frente de todo mundo no meio da aula”.

Continuei a frequentar a mesma aula, e pude perceber claramente um padrão: os dias que eu mais tinha vontade de chorar, quase sempre coincidiam com os dias antes da menstruação. Eu já me conhecia o suficiente, nessa altura da vida, para saber que minha fase luteal vinha com uma TPM que alterna estados deprimidos com irritadiços. Mas eu nunca havia a feito a conexão de que os asanas traziam tudo isso ainda mais à tona.

No começo, eu tentava lutar contra, suprimir tudo isso, não queria passar vergonha. Ainda é difícil, mas hoje consigo dialogar melhor comigo mesma enquanto esses sentimentos transbordam em forma de lágrimas no meio da prática.

Os momentos em que estamos ativas na postura são uma ótima oportunidade para observarmos nossa mente e os sentimentos que passeiam nela.

Os momentos em que estamos ativas na postura são uma ótima oportunidade para observarmos nossa mente e os sentimentos que passeiam nela.

Vou compartilhar aqui algumas estratégias que eu uso minha prática de yoga a favor de lidar com as emoções a flor da pele:

  1. Eu tomo consciência em que fase do ciclo menstrual eu estou. Ou até que momento estou passando na vida naquele momento. Se eu estiver nos dias antes da menstruação ou em um momento muito estressante, eu me trato de forma mais gentil durante a prática. Ao invés da atitude “vamos lá, força, persistência, chega de moleza”, quando um asana é desafiante, eu escolho me encorajar com palavras de amor como “você escolheu estar aqui na aula de yoga e cuidar de si”, “meu corpo é sagrado e eu cuido dele com carinho, e por isso estou praticando neste momento”, “não importa quão perfeita, forte, flexível você é, o que importa é que você escolheu demonstrar amor por ele praticando yoga”, ou simplesmente “você está aqui agora”.
  2. Eu não tento reprimir as emoções que afloram. Normalmente elas vem à tona quando eu me julgo que não sou competente para fazer aquela postura, ou quando sinto algum tipo de dor física, ou ainda certas posturas que mexem profundamente com certos chakras, como o umbilical e o laríngeo. Quando percebo que um “botão foi apertado”, ao invés de tentar barrar o sentimento que surge, eu tento conversar com ele, enquanto eu faço a postura. Ao abraçar essa emoção, e às vezes até deixar ela vir à tona em forma de lágrimas, eu permito que a tensão de querer fazer esse sentimento sumir para eu não sofrer vai se dissipando sem resistência, e como consequência, meu humor melhora muito depois da prática. Não apenas por causa das endorfinas, mas principalmente por não criar a resistência que faz as emoções persistirem.
  3. Eu uso especialmente as flexões para frente como forma de interiorização. Durante a fase pré-menstrual, é quando nós mulheres estamos mais sensíveis, introspectivas. Essas características podem ser cultivadas, e até exponenciadas, usando posturas simples como da criança, pinça, uttanasana (flexão para frente em pé), por um período mais longo de tempo, como uns 5 a 10 minutos. O importante aqui é dobrar o corpo a partir do quadril e encostar todo o corpo nas pernas, não importando se é preciso abri-las, no caso da criança, ou dobrá-las nas outras duas posturas. Observe os pensamentos e emoções que surgem, e sem se julgar ou se apegar a nenhum deles, vá se concentrando na sua respiração profunda. Esse simples ato já dissolve muito da irritação ou depressão que vem junto com a TPM, e nos ajuda a entrar em contato com o poder da intuição, muito poderoso nesse período.

Publicado em: Yogaway

Imagens: quotidiandose.files.wordpress.com/static.squarespace.com

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Aqui temos 6 comentários. Adicionar.

  1. Li a primeira frase e pensei “Nossa, que delícia chorar assim!” ai vi que você considerava isso negativo rsrs… como a perspectiva muda, né? Eu sempre fiz o estilo do seu professor, não que eu não tivesse emoção, mas gastava muita energia tentando escondê-las e até hoje não sei bem porquê, mas tentava não mostrar a tristeza nem a alegria. Estranho, né? Eu sempre achei! rsrs… sempre quis ter mais facilidade para chorar. Ultimamente tenho aprendido a lidar melhor com as minhas emoções, mas o choro ainda é raro por aqui, ai procuro outras formas de por para fora. Costumo dançar ou me alongar, ajuda muito.

    A postura da criança é a que eu mais gosto, e nunca tinha pensando no quanto ela me faz bem no período pré e menstrual, quando sinto cólica faço essa postura e ajuda muito. Achava que era só físico, mas realmente, me traz paz, calma, silêncio…

    • Melissa Setubal

      Roberta, que lindo seu comentário. Interessante porque quando eu morei com minha melhor amiga, ela falou que uma das coisas mais bacanas que ela aprendeu comigo foi a chorar e a expressar as emoções sem medo… Assim, fui aprendendo a lidar melhor com esse meu lado emotivo com mais carinho. Use e abuse da postura da criança, e me conte depois das suas observações ao praticá-la com essa consciência sobre suas emoções 😉

  2. Fabiana Batista

    Mel, #tamojuntas!!! Hahaha

    Tenho reparado que também acontece comigo nesse período do mês… Diversas emoções me vêem enquanto meditando e cantando os mantras da prática…

    Mas me sinto muito bem quando isso acontece… Encontro a minha paz, pois sinto algo muito especial sempre… Acho que inconscientemente tb tenho praticado essas suas estratégias sugeridas… 😉

    • Melissa Setubal

      Fabi, interessante essa de achar paz no meio do momento de caos do ciclo, não é mesmo?

  3. Cristina Nobile

    Olá Melissa,

    Comecei a praticar pouco mais de um mês, e venho notando, embora fui sempre muito emotiva, que o choro está muito mais presente… li a reportagem inteira chorando! A busca que fiz foi: choro e yoga, e achei sua matéria. Embora tenha a sensação que o chorar esteja me fazendo muito bem, não entendo por quê às vezes o sentimento que o acompanha é de uma profunda tristeza, é isso mesmo?

    • Melissa Setubal

      Oi Cristina,
      muito interessante essa sua observação, e importante destacar que tomar consciência dos sentimentos que vem à tona é um sinal excelente de que a yoga está ajudando a movimentar essas emoções que devem estar presas, talvez até por muitos anos. Não se preocupe em qual emoção é exatamente, se é uma coisa boa ou ruim, e sim em deixá-la se manifestar e em deixar os movimentos do corpo ajudar a acalmá-los e curá-los.
      Se entregue para os asanas e não se preocupe que as emoções vão se acalmar quando seu corpo sentir que as liberou.
      Saúde e Amor,
      Melissa

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