Medo: modo de usar

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Como aprender a lidar com seu medo e ficar íntima dele diminui o sofrimento de lidar com as situações mais desafiantes.

Paralisada de medo. Quantas vezes me vi nesta situação sem ter a menor ideia de como sair dela. Como alguém que sofre com ansiedade desde que me entendo por gente, uma das experiências que mais vivi era a do medo de algo que poderia vir a acontecer, ou seja, medo de alguma coisa ou situação que nem existia ainda.

Quando tive síndrome do pânico, tomei consciência de outro tipo de medo, que é o “essa experiência ruim pode acontecer novamente”, e eu passava meus dias obcecada pela ideia de que, de uma hora para outra eu iria me sentir sem ar, a beira da morte, sem nada que pudesse me salvar disso.

Eu sonhava com o dia em que não sentiria mais medo. Afinal de contas, sentir medo é uma forma de sofrer várias vezes: antes que a situação de sofrimento aconteça, e durante a situação propriamente dita, e depois que ela acontece e o receio dela se repetir.

Hoje entendo o medo como algo muito útil e necessário pois nos ajuda a não agir na impulsividade irracional e nos colocar em situações de risco.

Mas o problema reside quando confundimos o medo com a verdade.

Recentemente tive que resolver uma situação financeira. Lembro-me bem de não dormir direito na noite anterior a minha ida ao banco para conversar com meu gerente, imaginando cenários assustadores, incluindo o que eu iria passar uma humilhação chorando alto para todo mundo do banco ver. Ao sair de casa naquela manhã, deixei a preocupação e medo de lado por um segundo e pensei em qual seria o pior cenário de todos.

Me dei conta de que a situação já estava controlada, e que a ida ao banco era apenas um dos passos possíveis, e que, independente do que o gerente fosse me falar, não apenas eu tinha já alguns planos engatilhados, como ele poderia me oferecer outras possibilidades.

Ou seja, o medo não apenas estava me cegando sobre novas soluções que poderiam aparecer, como estava me fazendo sofrer mais, antes do tempo, e ainda me fazia perder tempo e energia que eu poderia usar para procurar soluções para a circunstância que estava vivendo. O medo não surge do fato, medo surge do que construímos com nossos pensamentos sobre aquela situação.

Medo é um ponto de vista. Uma criação da nossa mente.

O medo faz a gente olhar tudo de forma mais dramática, e distorce a forma como enxergamos a realidade.

 

Dentro do carro, indo para o banco, decidi fazer duas coisas: ao invés de alimentar meu medo, imaginando tudo que poderia dar errado, toda vez que um pensamento pessimista vinha à tona, eu procurava pela estação de rádio com a música mais animada que poderia encontrar e cantava a plenos pulmões, não como uma forma de negar meu medo, e sim como uma forma de me conectar com o momento presente, e ser capaz de encarar os fatos, e não as projeções de minha mente. A outra coisa foi exercitar a gratidão, identificando tudo de bom que existia na minha vida naquele momento, incluindo o fato de que várias pessoas estavam me apoiando nessa situação específica, até gente do meu passado que, por “coincidência” é uma especialista no assunto.

Quando eu me lembro que eu crio minha realidade, melhor explicando, que eu crio a minha experiência de realidade a partir dos pensamentos que cultivo em minha mente, quando eu percebo que a verdade é apenas um ponto de vista, quando me abro para receber suporte e pedir ajuda, quando eu escolho tirar o foco do que eu não tenho disponível e escolho colocar o foco no que eu já tenho disponível, quando eu deixo de lado o julgamento sobre mim mesma e os erros que cometi e uso minha energia em usar os recursos que já existem para dar um primeiro passo, quando me dou conta que tenho em mim a capacidade de reverter qualquer situação que se apresente, e que só preciso começar com apenas uma pequena iniciativa, sou capaz de superar o medo.

A coragem, que é agir mesmo com medo, é saber que, para sair da paralisia do medo, só é preciso entrar em ação, qualquer ação.

Somente precisamos dar um primeiro passo que o medo vai embora, pois quando estamos em ação, estamos no momento presente, que é o único lugar onde ele não sobrevive.

O medo não existe quando estamos em ação, porque quando estamos em ação estamos no momento presente, e quando estamos no momento presente, não existe passado e o medo de que uma situação se repita, e não existe futuro e o medo de que uma situação venha a acontecer. Só existe o agora. E onde você estiver agora, neste exato momento que você esse texto, você está em segurança, senão você não teria condições de prestar atenção no que estou dizendo.

O medo vem para nos ajudar a perceber que algo é muito importante para nós. E quando algo é muito importante, merece nossa inteira atenção e capacidade de ação. O mais interessante é perceber que o antídoto do medo é exatamente o que nos sentimos impedidas de fazer: agir.

Então, na próxima vez que o medo ameaçar te paralisar, lembre-se colocar-se em ação, não importa qual seja, se vai resolver o problema, se vai ser o certo, se não vai adiantar nada. Porque no final das contas, esse é um mecanismo para clarear a mente, e com a mente livre do medo, somos capazes de enxergar muito além.

Reflexão da semana: Qual a situação que está vivendo neste momento em sua vida que se sente paralisada pelo medo, e não consegue enxergar uma solução imediata?

Ação da semana: A partir da reflexão acima, ao invés de colocar sua atenção no como você pode resolver seu problema, pense no porque é importante que você supere esse desafio. Dessa forma, sua mente fica mais clara e você se sente mais capaz de realizar a segunda atividade: qual o primeiro pequeno passo que você pode dar na direção de superar essa questão que te causa medo? Pode ser qualquer coisa, desde conversar com alguém que possa te trazer um novo ponto de vista, ler um texto ou livro sobre o assunto, pedir ajuda para um especialista, etc. O importante é se colocar em ação e estar aberta para perceber as possibilidade que podem se descortinar a partir dessa primeira ação, e estabelecer uma próxima ação a partir dos resultados da primeira.

Inspiração da semana: Nesta palestra, Michael Neill conta de como o medo funciona como um projetor, criando imagens que são uma interpretação da realidade, e não são baseados em fatos, e sim uma história criada pelos nossos pensamentos. (legendas em inglês)

“Não importa há quanto tempo você está travado em uma situação, ou quão real seus problemas pareçam, não importa quão intratável uma dificuldade pareça, você nunca está mais que um pensamento de distância de uma experiência totalmente nova.”

Imagens: Tumblr/survivorpediatrics/worldofdiets

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