Menu do dia: Momento presente

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Chego em casa cheia de fome, lembro que preciso jantar. Cansada, não quero perder muito tempo com isso. Por um segundo, me lembro da prática da atenção, mas meu corpo grita: estou com fome! Escuto seu chamado e na frente dos meus olhos desfilam a carne, o macarrão, a rúcula. É, acho que dá para fazer um bom jantar.

No momento que corto o alho para o molho e sinto seu cheiro, minha mente já se aquieta. Não preciso fazer mais nada, a não ser cortar esses ingredientes. Corto a cebola, e meu olhos choram, sinto as lágrimas rolarem. Coloco tudo para refogar na panela, o azeite perfumado me desperta para a beleza do momento que é cozinhar, o cansaço parece ter passado, por um momento, sinto paz. Tento não me perder entre a carne refogando e o macarrão cozinhando, tudo tem seu tempo certo, assim como a vida.

Molho fervido, coloco a carne e escorro o macarrão, o vapor sobe, nada mais sublime nesse frio. Misturo um pouco do molho no macarrão, escolho não provar o sabor de nada ainda, vou usar como elemento surpresa. E então finalmente sento, prato colocado na mesa, com um garfo e um pão. Enrolo o macarrão delicadamente, vendo cada fio dançar num emaranhado perfumado e suculento. Dando a primeira garfada, logo vem à tona o que o lama explicou. Repouso o garfo, e somente experiêncio os impulsos que meu corpo tem ao detectar o alimento na boca, por um momento.

No próximo, mastigo suavemente, sentindo o molho flutuar numa mistura deliciosa na minha boca. Somente este momento existe. Mastigo um pouco mais, e com a boca quase transbordando saliva, engulo, e sinto o caminhar do alimento pela minha garganta, me aquecendo por dentro. Me sinto uma exploradora, uma cientista pesquisando esse ato fascinante que é alimentar-se.

E imaginar que muitas vidas se moveram inclusive a minha para que este macarrão chegasse ao meu prato….

Olha quantas experiências fascinantes, cheias de prazeres e descobertas eu perco quando estou comendo no automático, sem consciência. Quando eu escolho estar presente para o alimento à minha frente, todo um universo parece se descortinar à minha frente. Um portal dimensional para um lugar mágico cheio de tranquilidade e surpresas, e que está ali, à minha disposição a qualquer momento que eu tenho um alimento ao meu alcance.

E pensar que na maioria dos dias, escolho lutar contra o relógio, comendo depressa qualquer coisa já pronta e engolindo tudo em 10 minutos, comida e emoções, tudo junto. Tem dias que parece que comer é um obstáculo que me impede de fazer o que eu “tenho que fazer”.

Quando é que nutrir meu corpo virou mais um item da lista de afazeres?

Quando é que comer com prazer virou algo apenas para o final de semana, com uma quantidade de comida para alimentar um exército, cheio de “comidas proibidas” na dieta espartana da ditadura da beleza e da saúde?

Quando foi que me desconectei tanto do meu corpo, que preciso que o outro me diga o quanto e o que devo ou não comer? Quando é que perdi noção do que é saudável?

Quando é que cozinhar virou coisa menor, de Amélias presas no tempo antes dos sutiãs queimados, ou luxo de chef famoso que tem espaço gourmet na varanda do mega apartamento? Por que tercerizei o ato de preparar o alimento para alguém que não conheço?

Quando é que me esqueci da rede de seres que torna possível o fato de que tenho comida à minha disposição? Toda uma comunidade de humanos e não humanos, de seres vivos e elementos da natureza, que criaram e transportaram e me ofereceram o alimento, na maior conveniência no mercado mais perto da minha casa.

E quando trago à consciência tudo isso, numa simples garfada de uma macarronada, em uma noite qualquer de um dia de semana qualquer, me entrego à própria experiência do comer. Simplesmente comer. E me sinto capaz de meditar, no aqui e no agora, com o prato à minha frente, me oferecendo uma oportunidade de estar em contato comigo mesma.

Saboreando o Momento Presente

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