Ciclo Menstrual

O lado perverso de cultivar autoestima pelo corpo

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O amor próprio tem que ir muito além do que o espelho mostra

Fico felizona da vida quando vejo cada vez mais mulheres amando a si mesmas ao cuidar do próprio corpo, cuidando da alimentação e da atividade física para ficar mais felizes na frente do espelho, como também começam se amando sem precisar mudar absolutamente nada, exercitando a autoaceitação pra todo mundo ver.

Ao mesmo tempo, enxergo também alguns lados perversos dessa história. De um lado a mídia bombardeando que apenas o magro é saudável e bonito. Do outro lado, a mulherada grita que mulher de verdade tem curvas, que “somos gordas com orgulho” e rechaçando a magreza.

E isso pode nos deixar ainda mais confusas na nossa relação com nosso corpo e nossa autoestima. Como é que os dois lados podem estar certos e errados ao mesmo tempo?

Magreza é sinal de saúde. Gordura é sinal de doença. Ou não.

Durante o Renascimento, e boa parte da história da humanidade, ser gorda era sinal de saúde de ferro. Não tinha geladeira nem lanchonete 24 horas, então um organismo com capacidade de armazenar energia era muito bem vindo para a sobrevivência e perpetuação da espécie, além de sinal de status (quem tinha mais comida era mais rico).

Daí que no pós-guerra mundial isso mudou, com a tecnologia de conservação e armazenamento de alimentos ficando cada vez mais acessível.  Junto com isso, a indústria da saúde (doença), que começou “demonizando” a gordura como maior causadora dos males da vida moderna.

Ok, com a maior conveniência da disponibilidade de alimentos a todo momento, começamos realmente a ver os índices de doenças crônicas aumentando exponencialmente, sendo grande parte delas associadas ao aumento da massa corpórea. Isso fez com que enxergássemos os mais magros automaticamente como mais saudáveis.

Com esse mito construído, encaixamos as pessoas em categorias de saudável de acordo com essa visão (que expliquei de forma bem simplista, a título de não estender demais o texto). Sendo que está mais que provado que há pessoas magras sofrendo de doenças crônicas resultantes de sua alimentação e estilo de vida, e pessoas gordas absolutamente saudáveis. Existem comportamentos compulsivos em relação à comida com magros e gordos, e tudo o que existe no meio de espectro.

Ou seja, IMC não necessariamente determina longevidade ou predisposição a doenças ou qualidade de vida. Claro que os extremos dessa história tem que ser acompanhados com mais atenção, porém, para grande maioria das pessoas, peso e medidas não tem relação com a saúde. Saúde tem a ver sim com como elas nutrem seu corpo diariamente com comida e movimento.

Não existe autoestima em dia se não há uma consciência mais profunda sobre o que comemos e como movimentamos nosso corpo.

Uma magra que come tudo saudável, mas não movimenta seu corpo diariamente não é saudável. Uma gorda que faz tudo quanto é tipo de atividade física, mas não come os nutrientes que seu corpo precisa, não é saudável. Uma magra que segue a dieta dos shakes e vai pra academia com disciplina militar não é saudável. Uma gorda que não tá nem aí pro que coloca no prato e não levanta da cadeira não é saudável. Substitua magra e gorda aleatoriamente nessas frases e teremos os mesmos resultados. Quando não somos saudáveis, não há autoestima saudável, pois cuidar da saúde é indicador básico de amor próprio.

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Magreza é igual beleza. Gordura é igual feiúra. Ou não.

Basta ir a um museu para saber que o modelo de beleza nem sempre foi a magreza vista nas passarelas e capas de revista de hoje em dia. Mulher bonita antes da Revolução Industrial era mulher cheia de pneuzinhos, com cara de lua, pernas cheias de celulite. Óbvio que estamos falando aqui do modelo eurocêntrico de beleza. Afinal de contas, em cada parte do mundo, o modo de vida e as características hereditárias dos diversos grupo étnicos (que são influenciados pelo clima e pelo meio ambiente de origem) fazem com o que é considerado belo em um ser humano mude bastante de critérios.

Ao mesmo tempo, há características inerentes da sobrevivência da espécie humana que são estudadas como indicadores de beleza justamente porque mostram “mais saúde e fertilidade”, como a maior capacidade de adquirir e manter massa gorda e muscular. Independente disso, nesse estágio da evolução humana (até pelo que descrevi no item anterior deste texto), fabricamos os indicadores de beleza de acordo com diversos interesses, mudando o que é atraente de acordo com a vontade de fazer mais dinheiro das indústrias da moda, dos cosméticos, alimentícia, farmacêutica, das cirurgias, e por aí vai.

Quando vamos parar para perceber que a classificação de feia ou bonita pouco tem a ver com características, e muito tem a ver com nossa referência de valor? Somos valorizadas se somos consideradas atraentes como parceiras sexuais. Tem alguma coisa muito errada aí nessa história, que tem a ver com a objetificação da mulher, com a desvalorização de seu papel na sociedade, com a desconsideração da integridade do ser humano feminino, de suas emoções e potencialidades.

Não adianta cantar que é “All about the bass”, e falar mal da modelo ou artista da TV que está magra demais. Não adianta valorizar o bundão, e zuar a “sem bunda”. Não adianta ser a magrinha à base de genes ou de dieta e chamar a gorda de preguiçosa e sem força de vontade. Não adianta ser a disciplinada da academia e esfregar na cara de todo mundo via Instagram que “é só querer”. Não adianta anunciar aos quatro ventos o quanto você está feliz com o corpão depois da dieta/academia/cirurgia plástica e continuar faminta por aprovação dos outros. Não adianta ser a gordinha super de bem com o próprio corpo que xinga de raiva a magra “que nasceu assim”. Não adianta ficar invejando e querer copiar o corpo/ou parte do corpo da outra, e achar que se um dia conseguir ter aquela característica você finalmente vai ser feliz.

No meio entendimento, belo e feio pouco tem a ver com a aparência, e muito tem a ver com o caráter da pessoa, a que é observada e a que observa. Tem muito a ver com o valor que a pessoa se dá, e pouco a ver com o valor que o outro lhe dá.

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Autoaceitação é o primeiro passo para o amor próprio.

Considerando tudo isso que falei acima, independente de onde você está com sua saúde e sua autoestima, o passo mais importante é você se amar exatamente do jeito que você está agora. Não é acomodação, e sim inteireza, amar cada parte de si, incluindo aquelas que pensamos que precisam ser consertadas. E começar a enxergá-las como partes que desejamos ser melhores não porque me comparo com o outro ou porque alguém me cobra ser diferente do que sou, e sim porque conhecemos nossas potencialidades e temos o impulso de explorá-las.

Esquecer os pesos e medidas depois de feito o diagnóstico de saúde, e começar a prestar atenção na densidade nutricional do seu prato e na quantidade e qualidade dos movimentos que inclui no seu dia a dia. Esquecer se a cara está cheinha, a bunda cheia de estrias, a perna cheia de celulite, a barriga cheia de dobras, (ou o exato oposto para as que sofrem com o pouco peso) e começar a cultivar a autocompaixão lembrando-se a todo momento que seu corpo inteligentemente criou essas reações como uma forma de autoproteção. Esquecer que existem um milhão de coisas e procedimentos que você pode consumir/adquirir/fazer, e começar a ser as um milhão de habilidades/capacidades/potencialidades que você tem e pode desenvolver. Esquecer os julgamentos que fizeram sobre sua aparência e que ecoam em sua mente, e começar a ouvir a voz sutil e gentil da sua alma que é amor puro da fonte.

Com essa jornada iniciada, cuidar da alimentação e da atividade física não vai ser uma obrigação chata que precisa de muita força de vontade e muita encheção de saco dos outros, e sim algo que fazemos automaticamente porque tem sentido, porque sentimos no âmago do nosso ser uma vontade enorme de fazer o melhor por nós mesmas. Cuidar de si mesma vira prioridade não pelo esforço, e sim uma fonte de alegria e de vida.

Imagens: cdn.sheknows.com / femaleintel.com / whwweb.com

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