Ciclo Menstrual

Os “Deusos” da comida e sua carne

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O que Rodrigo Hilbert, Jamie Oliver e Michael Pollan podem nos inspirar sobre comida de verdade

Desde que assisti Cooked, documentário do “muso” Michael Pollan no Netflix, estou em estado de êxtase. Jamie Oliver é uma paixão desde os tempos que eu ainda nem pensava em alimentação saudável. Rodrigo Hilbert é a unanimidade nacional que nos conquista com sorriso e mão na massa. Esses “deusos”, cada um da sua forma, influenciam muitas pessoas na nossa forma de comer e enxergar a importância dos alimentos na nossa vida como um todo.

Recentemente, o Rodrigo Hilbert se viu no meio de uma controvérsia quando, em seu programa de TV, mostrou todo o processo de um prato feito com cordeiro, começando por como conseguiram a carne do animal. Foi tanto frisson que teve que pedir desculpas.

O mesmo já havia ocorrido com o Jamie Oliver, que anos antes, em um dos seus programas de viagem, mostrou cenas muito parecidas e recebeu críticas também muito parecidas.

Em Cooked, temos a oportunidade de conhecer como culturas tradicionais se alimentam nos dias de hoje, e logo no primeiro episódio “Fogo” já vemos bichinhos como a estrela do prato. (quem não viu, para tudo que está assistindo, e veja todos os episódios!)


Cooked

Constantemente sou perguntada se sou vegetariana ou vegana. Talvez porque muita gente ainda associa alimentação saudável com vegetarianismo (o que não necessariamente é uma conexão direta), ou porque costumo postar e ensinar muitos pratos vegetarianos/veganos/crudívoros, ou até porque tenho um passado dedicado ao estudo e à prática da sustentabilidade e um presente da espiritualidade.

Não vou entrar aqui na seara de tentar te convencer das razões pelas quais devemos fazer ou não certas escolhas, por causa de saúde ou de ética, em consumir ou não bichos e seus subprodutos. Cada lado da história tem excelentes argumentos.

A questão é que, a grande maioria de nós, consome animais de diversas formas no dia a dia (inclusive fora do prato) e o faz sem consciência. E é isso que penso que esses moços de quem falo aqui podem nos ajudar nessa questão.

Ao meu ver a maior incoerência dessa confusão com o episódio do programa de TV do Rodrigo Hilbert não vem das pessoas veganas, que escolhem essa forma de alimentar por diversas razões incluindo as de evitar o sofrimento dos animais. Que aliás, penso ser uma crítica muito relevante, que vou voltar depois.

Mas agora convido à uma reflexão a galera que caiu de pau em cima do cara porque ele mostrou uma cena absolutamente contextualizada, não apenas no programa em si, na vivência dele como pessoa desde criança, e como também com a realidade de quem escolhe comer carne de qualquer bicho.

Ficamos chocados com cena da morte do animal, enquanto tranquilamente pegamos a bandejinha de isopor no supermercado com o bife que vai no nosso prato no jantar ou o peito de peru do café da manhã.

Vemos vídeos e mais vídeos nas timelines das redes sociais sobre as crueldades da criação de animais, e logo depois estamos na fila do fast food do hambúrguer. Deixamos de comer a carne, mas o queijinho e o ovinho estão presentes em toda refeição sem nem se preocupar com a qualidade de vida dessas criaturas que nos forneceram isso. Falamos sem parar do sofrimento dos bichos quando são mortos, e consumimos soja e milho como se não houvesse amanhã esquecendo da quantidade de animais que deixam de existir nessa face dessa Terra fruto da monocultura altamente “agrotoxicada”.

Bora lá deixar nossas diferenças de lado, carnívoros e veganos, e começar a pensar que TODOS nós temos o rabo preso nessa história. Vivemos na sociedade de consumo. Até os aborígenes australianos do documentário do Michael Pollan, que ainda comem carne de lagartos caçados à base de queimadas, também tem seus pacotinhos com comida em casa. Ou seja, independente de nossa escolha, estamos embolados até o pescoço nessa confusão.

E não tem muito como escapar dessa dinâmica. Mas tem sim como fazermos a nossa (importante) parte dentro dela, a partir do momento que vamos tomando consciência e fazendo escolhas mais coerentes.

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Vou me lembrar para sempre do episódio dos nuggets, em um dos programas do Jamie Oliver, em que ele pega as partes consideradas mais nojentas de um frango e faz a famosa “pasta rosa” da qual os nuggets industrializados são feitos. As crianças em pavorosa dizendo que nunca comeriam algo feito com a cabeça, tendões, cartilagens e outras partes nada apetitosas do bicho. Ele mói tudo, tempera, faz bolinhos, empana e frita, e de repente a criançada está em pavorosa para comer os nuggets!

Percebe a incoerência na qual vivemos desde pequenos, desde que a grande maioria de nós perdeu completamente a conexão de onde nossa comida vem, o que está por trás da produção daquele alimento, seja de origem animal seja vegetal? Acredito que vegetais e animais, incluídos aí nós, humanos, estamos todos em sofrimento pelas doenças dessa falta de conexão.

É isso que me faz endeusar o Michael Pollan e seu documentário Cooked, na qual ele brilhantemente nos relembra da importância da nossa conexão com a origem dos alimentos, o seu preparo e a forma como comemos (seus livros e outros docs são necessários serem assistidos por qualquer ser humano nesse mundo). Que me faz admirar o trabalho que o Jamie Oliver vem levando as pessoas para cozinha e para consumir menos industrializados.

E que me faz apoiar a autenticidade do episódio polêmico do Rodrigo Hilbert, que mostrou um pequeno produtor que está ali, cultivando e criando seus alimentos com todo cuidado, mostrou pessoas que honram e preparam esse alimento com a cerimônia que merece.

O que realmente me choca nisso tudo, no final das contas, é que o mais comum é a gente comer alguma coisa sem pensar minimamente na cadeia de seres, circunstâncias e escolhas necessárias para aquela comida estar ali sendo colocada na nossa boca.

Porque, pra mim, comer consciente é uma questão de sobrevivência, não apenas da nossa saúde individualmente ou da qualidade de vida do animal em si, como também enquanto espécie humana. Não continuaremos vivendo nesse planeta por muito mais tempo se não passarmos a fazer escolhas mais inteligentes e estratégicas. Incluindo aí escolher ou não continuar comendo carne.

E se continuar, saber que a qualidade de vida e de morte do animal que nos alimenta tem conexão direta com nossa saúde e com nosso bem estar. Saber que a quantidade de vezes que consumimos por semana tem impacto direto na mudança de clima, no calor, na chuva. Saber que de quem compramos causa um impacto direto na economia e no funcionamento da sociedade e da distribuição de renda.

Matando a curiosidade, eu consumo sim produtos de origem animal. E estou longe de um consumo exemplar de cartilha de sustentabilidade e de espíritos elevados. Meu convite aqui nesse texto é para juntas irmos encontrando soluções para chegarmos mais perto do ideal possível da comida de verdade.

Eu pego firme em consumir na maior parte do tempo pratos baseados em vegetais, na grande maioria orgânicos/biodinâmicos, em consumir o mínimo que meu organismo e meu desejo pedem de produtos de origem animal, sendo que desses prefiro comprar orgânicos e caipiras direto do produtor para ter dentro de casa.

E é exatamente o que recomendo para minhas clientes, e aqui para você. Um passo de cada vez. Pegando inspiração em pessoas que estão fazendo essa jornada também e nos oferendo na mídia (amém que tem gente bacana com bom espaço nela hoje em dia) possibilidades para um consumo consciente sustentável saudável justo e com menos sofrimento para outros seres.

imagens: divulgação

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