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Os mitos dos “medidores” de saúde

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IMC, calorias e músculos não são bons indicadores de uma pessoa saudável

O que é uma pessoa saudável? Como podemos medir quão saudável uma pessoa é? Quais os critérios que você usa para se considerar uma pessoa saudável ou não?

Essas são perguntas bem difíceis de se responder para a gente mesma, imagine a comunidade dos profissionais de saúde chegarem a um consenso. Porém, ainda sim, existem alguns indicadores que tem sido usados como “medidores” de saúde universais. Só que, nem de longe, eles são verdades absolutas e não necessariamente indicam o nível de saudabilidade de uma pessoa.

Assim como um simples exame de glicemia não confirma ou isenta o risco de diabetes, ou os níveis de colesterol pouco tem a ver com a saúde do coração (veja mais sobre isso aqui), vamos conversar aqui sobre três indicadores muito usados hoje em dia que nós comumente usamos como indicadores de saúde e que pouco nos diz se alguém ou algum alimento é saudável.

IMC: Índice de Massa Corpórea

Há algumas décadas o número do IMC vem sido usado como um dos principais indicadores de saúde e de aumento de risco de doenças metabólicas como diabetes e problemas cardiovasculares. A partir desse índice, classificam-se as pessoas com baixo peso, normal, sobrepeso e obesidade. Um conceito que contém muitas limitações e que pode nos levar a considerar pessoas saudáveis como tendo problemas, e pessoas com muitos riscos como saudáveis.

Quantas pessoas com estilo de vida ativo fisicamente, que comem uma alimentação cheia de comida de verdade, com uma vida cheia de energia e satisfação e que tem um IMC alto, ou pessoas como eu, que sempre tiveram um IMC considerado abaixo do normal. Quanto pessoas com IMC considerado normal, com circunferência abdominal dentro dos limites considerado normais, vive um estilo de vida estressado, comem uma alimentação cheia de comida processada, e insatisfeitos com a própria vida.

A determinação das categorias do IMC, segundo estudos conduzidos por pesquisadores para The British Medical Journal, “é inteiramente arbitrária e em desacordo com as provas subjacente sobre a associação entre índice de massa corporal e mortalidade, um fato que destrói as pretensões científicas e valor diagnóstico do índice”.

Nível de atividade física e de nutrição tem muito mais efeito como indicador de saúde do que o peso tem.

Não há como medir o quanto uma pessoa se movimenta ou o quanto suas refeições são nutritivas pelo tamanho do seu corpo. Não há como se fazer nenhum tipo de especulação sobre isso, por mais que a sociedade teime em continuar perpetuando estereótipos sobre isso.

Assumir que pessoas gordas não são saudáveis, não são ativas, não são produtivas, não são capazes é um preconceito reforçado na sociedade por esse tipo de indicador. Não é ok disfarçar preconceito com preocupação com a saúde. Inclusive de você com você mesma. Muitas de nós falamos para todo mundo que queremos emagrecer pra ficar mais saudável, mas vamos falar a verdade: pode até ser que também, mas no fundo queremos mesmo é ficar mais atraentes, e ser mais aceitas e mais amadas. Numa cultura que atualmente privilegia quem é magra, TODO MUNDO quer ser magra porque pensa que vai ser mais feliz. E isso simplesmente não é verdade.

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Calorias dos alimentos

Volta e meia, alguma leitora ou cliente me pergunta se aquela receita de sobremesa é light, ou se tem muitas calorias, ou se engorda. Esse conceito de que calorias é indicador de que uma comida vai mexer os números da balança pra cima está tão encrustrado em nossa mente, que acabamos por trocar alimentos absolutamente saudáveis, como uma manga (que tem muitas calorias e um alto índice glicêmico), por produtos alimentícios praticamente sem nutrientes viáveis como shakes diet (que tem poucas calorias ou um baixo índice glicêmico).

Ou comparar dois alimentos e o mesmo valor de calorias como igualmente saudáveis. Ainda mais quando pensamos que podemos consumir mais da comida com menos calorias porque ela vai engordar menos. O valor nutricional e efeito no organismo de um pão light jamais será o mesmo de um pão integral feito de ingredientes orgânicos 100% naturais. O pão light, além de proporcionar menor sensação de saciedade, é feito de ingredientes altamente processados e destituídos de nutrientes importantes, que o pão integral contém.

A teoria das calorias veio da física clássica: se você consome mais calorias do que gasta, você engorda. Se você gasta mais que consome, você emagrece. Ninguém para pra pensar que nossa biologia nem de longe funciona como a mecânica dos objetos, e que há muito mais variáveis nessa história.

Inclusive o fato de que restringir a quantidade de calorias que ingerimos por dia como estratégia de perda de peso é fadada ao fracasso justamente porque faz o corpo ligar os mecanismos de sobrevivência que o incentivam a acumular o máximo de energia possível em forma de gordura corporal para poder lidar por mais tempo com essa privação de nutrientes.

Um estudo indica que o organismo modifica seu nível de gasto energético em descanso para usar menos energia em momentos de privação alimentar. Até porque perder peso corporal não necessariamente significa perder gordura corporal. Muitas vezes, estamos perdendo massa muscular, o que pode ser até perigoso, assim como ter um índice de gordura corporal muito baixo, que causa muitas disfunções hormonais (como TPM e infertilidade) e metabólicas.

Músculos definidos

Atletas e malhadores tem a cara da saúde, certo? Errado. Na maior parte dos casos, as pessoas que dedicam boa parte do seu tempo na prática de esportes e de esculpir músculo são bem pouco saudáveis. Por dois motivos básicos: o primeiro é que para se chegar a níveis ótimos de performance, muitas vezes essas pessoas super utilizam certas partes do seu corpo, que se desgastam e degeneram muito mais rapidamente que os seres humanos não-atletas. Ou seja, seus corpos são usados como máquinas altamente especializadas com alta exigência durante muitas horas por dia, e isso faz com que tenham problemas fisiológicos muito mais rapidamente que nós meros mortais.

O segundo motivo é a alimentação. As dietas dessas pessoas é altamente controlada, cheia de restrições, e muito baseada em produtos alimentícios que contém inúmeros ingredientes artificiais ou desprovidos de nutrientes naturais. Fora o fato de que vários fazem uso de substâncias para acelerar ou melhorar sua performance ou aparência, sejam elas legais ou não.

Esse tipo de comportamento alimentar e suplementar, levado ao longo de meses ou anos pode criar uma série de condições de saúde e doenças sérias.

Uma outra questão importante que devemos considerar ao usar músculos e aparência como medida de saúde é a questão da autoestima e do nosso valor próprio. Quando colocamos nosso foco de saúde na nossa imagem no espelho, na foto do Instagram, no quão atraente parecemos para as pessoas, em nos comparar com o visual de outras pessoas, nunca ficaremos satisfeitas. Se ficamos com a barriga “negativa”, falta o bumbum das Kardashians ou das mulheres-fruta, ou as pernas de passista de escola de samba ou de modelo de passarela, ou… ou… ou… E alimentamos um ciclo de eterna insatisfação conosco mesmas.

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Quais são melhores medidores de saúde?

Minha sugestão para você é usar outros medidores de saúde, e que você possa começar a se observar mais a partir deles:

Nível de energia e bom humor, de satisfação com a vida, e de amor próprio.

Você pode até me questionar que esses são medidores subjetivos, que não conseguimos realmente medir em números como em exames de sangue, ou peso, ou medidas.

Porém, acredito que eles sejam muito mais eficientes. O resultado máximo de uma pessoa com saúde é ser capaz de realizar o que sua essência deseja na vida. Se nos nutrimos sistematicamente nosso corpo de comida de verdade e de movimento, automaticamente teremos mais energia e um humor melhor, pois nosso organismo terá matéria-prima para fazer nosso metabolismo e nossos hormônios funcionarem adequadamente.

Isso por si só já nos traz mais satisfação com a vida, pois ter mais energia e bom humor nos possibilita fazer mais das coisas que nutrem nossa mente, nossas emoções, nosso amor próprio. E quando temos nosso amor próprio nutrido sistematicamente, temos uma melhor saúde que a integratividade do nosso ser pode ter.

Não estou aqui dizendo pra você deixar de consultar e seguir orientações do seu profissional de saúde. Porém, recomendo que a gente expanda nosso conceito de saúde, e reflita sobre o quanto certas formas de pensar e enxerga as coisas limitam nossa experiência de saúde e de felicidade.

Imagens: womenonthefence.com/becomegorgeous.com/healthyhomeboy.com

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Aqui temos 6 comentários. Adicionar.

  1. Márcia Nogueira

    Melissa Querida,
    Concordo com você totalmente!!! Como sempre, suas dicas vão muito mais além das receitas saborosas e nutritivas 😉 Tomara muitas mulheres tomem consciência e se amem mais por inteiro, sem esteriótipos de beleza, e daí se tornem mais belas, atraentes e, consequentemente, felizes 😉
    Agradeço mais uma vez pelos posts!
    Beijos e até!
    Márcia

    • Melissa Setubal

      Que ótimo Márcia! Obrigada a você pelo carinho <3

  2. Renata Cruz

    Oi melissa, adorei a matéria! Faço nutrição e foi muito importante pra mim ler sobre isso. Realmente ser menos “mecânico” na hora de medir a saúde representa muito mais eficiência! É bem por aí que quero seguir depois que me formar.. Se vc puder me indicar artigos, filmes ou qq outra coisa que possa me ajudar no caminho da nutrição mais natural e empática, te agradeço muuito, quer dizer, te agradeço MAIS né pq já sou grata pela sua palestra no sufeni e ótimo site e ótimo trabalho que vc realiza! Grande Beijo

    • Melissa Setubal

      Puxa Renata, que demais saber que você tem essa consciência como profissional de nutrição. Você lê inglês? Minhas referências acabam sendo nessa língua pois fiz minha formação no exterior. 🙂

      • Renata Cruz

        Leio sim, pode me mandar! Obrigada pela atenção querida, adoro ler seus emails semanais na minha caixa de entrada! Gratidão sempre! Um beijo!

        • Melissa Setubal

          Maravilha! Então faz o seguinte: me manda um email me fazendo esse pedido que te respondo com os links e recomendações, que fica mais simples de eu reunir tudo. Pode ser?
          E fico feliz demais de saber que o conteúdo que ofereço semanalmente é útil para você. Beijos!

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