Perdão: um ato de egoísmo

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Porque perdoar quem te fez mal não é o que faz você vencer o jogo da paz de espírito.

Sabe aquelas pessoas com poder de tirar a gente do sério? Parecem que elas vieram ao mundo com uma capacidade especial de apertar nossos botões, com a única e exclusiva missão de nos irritar, nos magoar, nos machucar. Mas esse texto não vai ser uma reclamação sobre elas. Esse texto também não vai ser sobre aquela velha verdade de que elas apenas espelham as coisas que nos incomodam sobre a gente mesma, seja o que a gente possui e não que mostrar, ou que a gente não possui e gostaria de ter.

Esse texto vai ser sobre a ferramenta mais eficaz para neutralizar tudo isso instantaneamente, que se chama perdão. Porém, também não vou aqui falar sobre perdoar que tem fez mal com velhas verdades como “se essa pessoa te fez sofrer, é porque ela mesma está sofrendo muito”. Ou que raiva e ódio pelo outro são “venenos que nós mesmas tomamos”. Nem entrar em méritos religiosos ou espirituais, de dar a outra face a tapa, ou de fazer cara de buda blasé.

Vou compartilhar aqui sobre as lições e estratégias sobre perdoar a mim mesma, pois nunca encontrei ferramenta mais eficiente e simples de me livrar do ressentimento e da culpa.

Apesar de um pai amoroso e presente, e um irmão idem, por uma razão ou outra, desenvolvi uma dificuldade em lidar com meu lado masculino e em saber confiar e me relacionar com homens. Não só romanticamente, eu digo, não é esse o ponto. A questão é que é comum eu sair estropiada das interações com esses seres, normalmente achando que fui usada, manipulada, subjugada, desrespeitada, e até violada.

Depois de passar pelos estágios clássicos de negação, raiva, negociação, depressão, a último deles, a aceitação, vinha por meio de uma cobrança interna enorme de que eu tenho que perdoar o cara que fez eu me sentir daquele jeito. Isso se origina desde um costume cultural (seja educada e aceita as desculpas do amiguinho que te mordeu na escolinha, vai?), e uma prática religiosa (corações rancorosos não entram no reino dos céus), até uma crença limitante (você tem que ser uma menina boazinha, porque todo mundo tem que gostar de você, porque só agradando todo mundo você jamais ficará sozinha – mesmo que isso signifique ficar mal acompanhada).

perdoar

Ok, você venceu. Vou fazer de conta que sou uma alma elevada e perdoar quem me fez mal. Então porque raios eu não me sinto melhor?

A-ha! Porque falta ainda uma casa no tabuleiro do jogo da vida para eu ganhar: me perdoar.

Me perdoar por ter permitido que essas pessoas fizessem tudo isso comigo, por não ter feito escolhas mais espertas, por ter me deixado levar pela situação, por sentir emoções ruins como raiva, ódio, ira, tristeza, ansiedade, por repetir esse erro de novo e de novo, por me julgar de forma tão dura, por sofrer, por não aprender a lição, por me chamar de palavras bem feias durante o processo, por não estar acima do bem e do mal, por não ser Madre Teresa/Jesus/Buda ou qualquer outro ser iluminado que eu deveria seguir o exemplo, por não ter ouvido a voz da minha intuição antes das coisas ruins acontecerem, por me deixar me levar pelo momento, por errar e me esquecer que sou apenas humana.

Esses dias me dei conta que gasto um tempo enorme tentando me desapegar dos sentimentos ruins que tenho pelas pessoas que me fizeram mal para perdoá-las e deixar ir embora qualquer nhaca dessa história, e que não usava tempo nenhum fazendo esse mesmo processo por mim mesma.

Perdoar-se é talvez um dos atos mais extremos de amor próprio que existem.

Girl-hugging-herself

Tá, e como faz isso?

Comece o processo de cura de qualquer mágoa sendo egoísta e pensando em si mesma, colocando sua energia primeiro em se perdoar (dica: vai ser bem mais fácil perdoar quem te magoou depois disso, e sublimar tudo que aconteceu, e viver a vida muito mais leve 😉 ). Um caminho possível para isso é pensar em como agiria com alguém que a gente ama muito na mesma situação. Pensar em como conversaria com a melhor amiga que estivesse se chicoteando porque pensa que agiu de forma errada. Imagino que a abraçaria, daria colo, ouviria seu lamentos com compaixão, enxugaria suas lágrimas com gentileza, e a faria rir para a tirar desse estado, mesmo que por um momento. Então, hora de copiar e fazer a mesmíssima coisa por si mesma!

Reflexão da semana: Qual foi a última vez que você se condenou por ter deixado que alguém te magoasse ou por ter se metido em uma roubada, ou ter feito alguma besteira?

Ação da semana: Quais as palavras que você usaria para ajudar uma amiga a se perdoar pelas mesmas coisas que você descreveu sobre sua situação na reflexão acima? Escreva uma carta como se fosse para ela, ajudando-a a se desvencilhar dos sentimentos de ressentimento e culpa em relação a si mesma. Compartilhe comigo seus insights e o que aconteceu nesse processo.

Inspiração da semana:

“Quando eu atravessei o portão que me levaria para a liberdade, eu sabia que se eu não deixasse minha amargura e meu ressentimento para trás, eu ainda estaria na prisão.” ~ Nelson Mandela

Neste vídeo você vai ver que existem muitos estudos mostrando o impacto positivo na saúde e longevidade das pessoas que praticam o perdão. Além do fato de que o perdão é um mecanismo de sobrevivência que nos dá a capacidade de prosperar como indivíduos e como espécie, ele também abaixa os níveis de pressão arterial e doenças cardíacas, de cortisol e estresse, de dor crônica, e o bem-estar em geral. Imagine o impacto na sua saúde se você praticar mais o perdão consigo mesma!
(em inglês, com legendas em inglês e transcrição disponíveis)

 

Imagens: Blog do Wilmar Antunes/UMA mulher/Flywithmeproductions

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