Ciclo Menstrual

Quem tem medo do feminismo?

Share this:

A pergunta acima é, na verdade, mais ampla: a quem interessa desqualificar o feminismo?

Um texto de Débora Rubin
jornalista, escritora e voluntária da APAM – Associação Paulista de Amparo à Mulher

Fiquei pensando sobre isso depois de um bate-papo com a minha irmã mais velha. Ela, uma pessoa ciente de que as mulheres são as mais prejudicadas com a jornada dupla (tripla, no caso dela, que tem filhos), ciente de que as mulheres ainda precisam ocupar diretorias de empresa, cargos públicos, cenários políticos onde predominam os homens (brancos de terno), vibrou quando eu disse que algumas empresas estão investindo em políticas de equidade de gênero – gender balance, como algumas firmas preferem. Eu também vibrei; embora eu desconfie que grande parte dessas ações sejam pura maquiagem, acho que passou da hora de isso acontecer. Mas fiquei encafifada com a reação dela: “Gender balance! Taí, gostei! Porque feminismo é uma palavra muito forte. E já deu né?”.

Tudo o que ela mais deseja – um mundo justo para as mulheres – é o que o feminismo defende. Então por que o medo do termo? Eu tenho duas teorias. A primeira delas é que ao longo dos últimos quatro anos (desde junho de 2013, para ser mais exata), com a polarização política, feminismo virou sinônimo de pauta da esquerda e, daí, se eu não gosto do PT, se eu não gosto desses “radicais” e dessas mulheres furiosas, logo eu não gosto de feminismo. Se você se assume como feminista corre logo o risco de ser tachada de esquerdista ou de adjetivos pejorativos que fogem completamente à questão.

Outra teoria, não muito desconectada da primeira, é a de que as pautas do feminismo dos anos 70, assim como aconteceu com outros movimentos sociais da época, foram incorporadas suavemente pelo capitalismo como uma forma de sufocar o movimento. Foi uma tacada de mestre, tão genial, que fez parecer que o feminismo não tem mais razão de existir, e que quem brada por aí, nas ruas e nas redes sociais, é (de novo os adjetivos que não se conectam com a questão) chata, inconveniente ou quiçá ingênua. Afinal, veja só: a mulher chegou lá! Ela não só tem os mesmos direitos dos homens como está plenamente inserida no mercado de trabalho. E é nesta última conquista que quero me deter mais um pouco.

 

 

A entrada da mulher no mercado de trabalho já vinha acontecendo desde as duas grandes guerras do século XX, quando os homens foram lutar e as mulheres tiveram que trabalhar, tanto para manter a renda familiar como para fazer as empresas seguirem operando – bom para os dois lados né? Só que não (mas não vou me deter aqui nas condições de trabalho da época). Nos anos 60 e 70, com o coro enfurecido das mulheres que ‘ficam lindas quando bravas’, as mulheres entram com força para o mercado. Agora elas têm a pílula, que pode postergar a maternidade, a máquina de lavar, que deixou tudo mais simples e, as de classe média, empregadas domésticas – que as substituíram no papel de “do lar” às custas de deixarem seus próprios lares e filhos, sabe-se lá como, porque ninguém quer mesmo saber das mulheres pobres (e daí a necessidade do feminismo olhar mais e mais para essas mulheres).

Como não abraçar e comprar esse discurso maravilhoso das feministas dos anos 60/70? Claro que os magnânimos donos do poder amaram essa história toda de a mulher poder escolher quando quer ter filho, ter mais instrução, saber dirigir, ser moderna, cool, ser chefe de família e todo o mais. Esse pacote gerou a um só tempo duas coisas muito boas: mão de obra qualificada e novas e exigentes consumidoras (capitalism always wins!).

A nós, mulheres, ficou a ilusão de que o feminismo havia vencido. E que tínhamos, enfim, o poder. Que estávamos em pé de igualdade com os homens. Mas, veja só, a que custo?

Ganhando menos, tendo que cuidar da casa e assumindo 98% das responsabilidades com os filhos. Sendo constantemente vigiada quanto ao comportamento (até na escolha da roupa), sendo constantemente podada pela fala masculina, estando sempre nos cargos mais baixos. E ainda sofrendo violência doméstica, correndo o risco de ser abusada/estuprada nas ruas, ou até por amigos, gente próxima. Porque somos…mulheres.

Eu, que nasci em 1979, passei parte dos anos 80 e 90 observando essa geração incrível de mulheres poderosas em suas ombreiras gigantes achando que – uau! – não tínhamos mais do que reclamar. E que eu chegaria ao mercado de trabalho protegida, graças ao nobre trabalho que minhas antecessoras tinham realizado por mim. Tanto acreditei que o feminismo não era mais necessário que engoli, durante a década de 2000, assédio de jornalista (chefe ou não) achando que fazia parte do jogo. Sofri muita pegada em braço, no cabelo e na cintura em balada e, embora soubesse que tudo isso não estava legal, nunca relacionei com o fato de que não, nós não tínhamos chegado lá. Daí veio a quarta onda de feminismo. E sorte das meninas nascidas nos anos 90 e 2000, que já pegaram a coisa toda em ebulição novamente. Essa nova onda coincidiu com um momento político instável no Brasil. E aí voltamos para a teoria número um, que remete à polarização direita-esquerda.

Ao perceber que grandes grupos, nacionais e internacionais, entraram na onda do “empoderamento da mulher”, sofri um breque mental: eeepa! Aí tem coisa. Fazer parte dos movimentos do momento, dos modismos comportamentais, querer estar dentro dos novos paradigmas, sempre fez parte da essência do mundo corporativo, ainda que as empresas demorem a perceber o que está acontecendo e, mais ainda, a incorporar o discurso na prática diária da firma.

Mas, veja que curioso, essas empresas nunca vão falar em feminismo. E menos ainda abrir suas portas, ou que sejam seus ouvidos, às feministas. Não. De novo, como aconteceu no mundo pós “paz e amor”, elas vão se apropriar do movimento através de um discurso soft, global, moderno – gender balance. Vão mudar uma coisinha aqui e outra ali dentro do Recursos Humanos, vão dizer que seus departamentos estão buscando equilíbrio entre homens e mulheres (mas vão continuar sem entender porque no chão de fábrica e na diretoria é tão difícil conseguir fazer isso), vão fazer um workshop com uma celebridade do mundo das palestras que vai dizer que não é legal diminuir o outro e que existe um negócio chamado “mansplaning” – que é quando um homem quer explicar a uma mulher algo que ela já sabe e…. – e, por um instante, você, funcionária da firma, vai ficar felizona achando que, enfim, chegou lá, graças a sua empresa.

 

 

Só que para os representantes do mundo corporativo não existe relação nenhuma entre o dia a dia da companhia e as altas taxas de feminicídio (mortes em decorrência de violência contra a mulher). Ou entre a reunião na qual a mulher mal consegue ter voz e o estupro coletivo que aconteceu no Rio de Janeiro (e não causará nenhum espanto se o mesmo homem que impediu sua funcionária de falar na reunião comentar, no cafezinho: “ah, vai, essa mina aí do Rio quis dar pra trinta, né?!”). E à funcionária não ocorrerá perguntar, por exemplo, quando sua unidade vai abrir a creche. Não dá para desconectar as coisas nem fazer revolução pela metade.

Por isso eu não compro discurso soft quando se trata de uma mudança tão importante como essa. Não desprezo a importância das ações das grandes companhias nas mudanças de paradigma do mundo, mas acredito que a mudança não pode, não deve, partir de corporações. Tem que vir da sociedade, das próprias mulheres; e de homens que acreditam que essa revolução vai também melhorar suas vidas. A Islândia só se tornou o país com a menor desigualdade do mundo porque num belo dia de 1975 todas as mulheres fizeram uma greve geral. Naquele dia, elas não foram trabalhar, não cozinharam para os maridos, não trocaram uma única fralda. Foi o “Dia de folga das mulheres”, que acabou se desdobrando em outros atos, que por sua vez se tornaram atitudes, mudança de hábitos, até a Islândia se tornar o país que é hoje (detalhe importante: cinco anos depois, em 1980, Vigdis Finnbogadottir, uma mãe solteira divorciada, se tornou a presidente do país e ficou 16 anos no poder).

Quem desqualifica o feminismo tem medo de que exatamente? De que a mulherada tome o poder de fato? De que estejamos nos centros de poder e que isso diminua o poder masculino? Fazer a mulher acreditar que estava inserida, e que tinha os mesmos direitos, mas ainda a mantendo debaixo do guarda-sol do patriarcado funcionou bem durante um tempo. Agora não dá mais.

Não nutro nenhuma ilusão de que hoje, 8 de março, consigamos fazer algo similar ao que a Islândia fez 40 anos atrás (é o que os movimentos feministas estavam tentando convocar). Primeiro porque temos uma sociedade bem diferente da islandesa – como pedir a mulheres que dependem de seus empregos para faltar um dia em nome de uma causa que elas ainda não assimilaram? Em especial as de baixa renda, que têm trabalhos mais vulneráveis –, e segundo porque, como já vimos anteriormente, muitas mulheres torcerão o nariz para o chamado vindo de grupos feministas. Mas fica aquela esperança de que o movimento cresça, mude de forma, ganhe as ruas do Brasil todo, ganhe as mulheres que ainda acham que tudo é só questão de mérito (um dia a ficha cai), ganhe os homens parceiros, até que um dia, quem sabe, a gente chegue lá de verdade. Porque feminismo não é de esquerda, não é contra o homem, não é baderna nem discurso vazio. Feminismo é por uma vida mais justa para todas as mulheres.

Imagem de título: feminagemblog

Outro Post

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Receba conteúdos exclusivos