Revolução pelo Prato

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Como transformar o estilo de vida – e recuperar a saúde perdida – a partir da alimentação

Este artigo foi escrito pela linda Débora Rubin, de São Paulo, com a entrevistada Adriana Bergi, de Vitória, que já participaram do Sistema de Saúde Integrativa da Mulher, Saúde da Mulher Express e do Saúde Integrativa Express.

Marcelo era o que comia. Na verdade, o que ingeria: 60 cigarros por dia, baldes de cerveja, dois litros de vodka e, como prato principal, muita gordura, fritura, massas e doces. Aos 39 anos, com 126 quilos, sentia-se infeliz. A virada se deu em novembro de 2010. Um ano e meio depois, um novo homem se apresenta como Marcelo Mendez, 40 anos, jornalista, escritor, musicólogo – uma pessoa cheia de energia. De um extremo ao outro, Marcelo hoje sequer come açúcar, reduziu o sal em 70%, tem a acelga como melhor amiga e corre 10 quilômetros por dia. A mudança começou por causa da azia que sentia com frequência. Sem muita orientação, trocou a barbárie diária por pratos de salada. Basicamente, pepino e tomate. A azia foi embora e, de quebra, ele perdeu seis quilos. Foi o começo da sua revolução pessoal. O segundo passo foi começar a se mexer, nem que fossem dez minutos por dia. Hoje, Marcelo contabiliza não apenas a perda de 44 quilos, mas uma vida completamente nova. “Estava me matando. Preenchia as lacunas de carência com esse excesso de porcaria”, conta.

Para fazer a transição, Marcelo não contou com nenhuma orientação específica. Leitor voraz, buscou informação por conta própria e seguiu algumas dicas de amigos médicos. Sozinho, não apenas emagreceu, mas mudou por completo sua concepção de saúde. Mas ele é uma rara – e feliz – exceção. A maior parte da humanidade carece de um empurrãozinho quando o assunto é buscar mais qualidade de vida e saúde. Com sorte, alguns encontram isso no consultório médico, quando o profissional recomenda mais mudanças alimentares do que remédios. É o caso do cirurgião Alberto Peribanez Gonzalez, autor do livro Lugar de médico é na cozinha – Cura e saúde pela alimentação viva (Editora Alaúde), que prega maior cuidado com o que se come.

Ao mudarmos o que comemos, não mexemos apenas na nossa vida, mas nas de nossas famílias e da comunidade, no meio-ambiente e na saúde do planeta, atesta o médico.

A boa notícia é que, hoje, existem muitos profissionais que auxiliam quem está disposto a virar a mesa – e reinventá-la. Além de médicos e nutricionistas, existe ainda um profissional que se define como coach de saúde integrativa. Quem trouxe a novidade para o Brasil foi a capixaba Melissa Setubal, 33 anos. A técnica vai além de pregar dietas ou resolver problemas pontuais de saúde. Melissa trabalha 12 dimensões básicas que chama de Roda da Vida (veja quadro). E tudo começa, claro, pela alimentação. “É o básico para a sobrevivência, no aspecto físico. Constrói nossas células, mas também nos traz a energia da natureza”, explica a coach. Para obter essa energia, uma das primeiras coisas que a mestre ensina durante seu programa é que cozinhar é essencial para ter uma alimentação saudável. “Para quem vive na cidade grande, é a forma de entrar em contato com a natureza diariamente, de se reconectar com ela.” E também de saber exatamente o que está colocando no prato. Para que isso dê certo, é preciso manter distância de produtos industrializados. Quanto mais frescos, melhor.

O programa oferecido por Melissa dura seis meses e tem todas as características de um coach tradicional (normalmente, voltado para carreiras): o cliente estabelece metas para si, de acordo com suas demandas do momento. Relacionamentos, dinheiro, emoções, carreira e espiritualidade entram na pauta das sessões que ocorrem a cada 15 dias. Afinal, tudo está conectado, e quase todas as doenças modernas são fruto de uma alimentação ruim somada a rotinas estressantes e emoções escondidas debaixo do tapete. A profissional reforça o atendimento com textos, testes, receitas e outros materiais para reflexões enviados por e-mail. O foco central é estar atento ao que nos constrói: seja o alimento do corpo, a comida, seja os da mente e da alma, nossos valores e sentimentos.

Temos que nos perguntar do que queremos ser feitos, sintetiza.

Melissa tornou-se expert no assunto após fazer um curso no Instituto de Nutrição Integrativa, em Nova York. A escola, que oferece uma visão holística do que é a nutrição, foi criada pelo americano Joshua Rosenthal, após também ele ter sido tocado pelas mudanças em seu cardápio. Deslumbrado com os efeitos positivos da macrobiótica, movimento que prega uma alimentação com foco em alimentos integrais e não processados, decidiu que queria transformar a saúde do mundo. Para isso, criou uma metodologia na qual é possível atender cada indivíduo de acordo com sua personalidade e suas necessidades.

Quem passa por um intensivão como esse não vai deixar de comer as coisas que gosta nem virar um xiita da nutrição. Mas certamente vai fazer mais passeios pelas feiras e diminuir a quantidade de alimentos processados na despensa. Também vai comer menos vezes fora de casa e precisar menos de remédios. Afinal, está mais do que provado que a alimentação interfere diretamente na saúde.

A ciência também tem se esmerado em estudos sobre a relação entre os alimentos e o bem-estar. Há dez anos, a nutricionista inglesa Amanda Geary fez um levantamento com 200 pessoas sobre a relação entre a comida, o humor e a saúde mental chamado Food and Mood Project. Do total, 26% relataram uma diminuição na ansiedade e nas crises de pânico ao trocarem os alimentos “estressores” (café, açúcar, álcool, chocolate, etc) pelos alimentos de “suporte” (água, vegetais, frutas, peixes, sementes, fibras). E 24% disseram se sentir menos deprimidos. Outro estudo, conduzido por Judith Wurtman, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), mostrou a importância do carboidrato na produção da serotonina, substância que controla as emoções.

Nem é preciso que a ciência ateste que comer bem opera milagres. Quem passou por uma mudança de hábito, sabe. Adriana Bergi, 37 anos, nunca foi uma junkie da comida. Longe disso. No entanto, comia de forma inconsciente. Seu caminho de descoberta sobre os hábitos alimentares foi inverso ao de Marcelo: ao cuidar das emoções, ela melhorou sua alimentação. Quando procurou o programa de Melissa, estava fragilizada com a morte da mãe e teve de interromper uma viagem para estar perto do pai doente. “Estava em um daqueles momentos em que a gente se pergunta qual o sentido da vida”, recorda. Paralelamente a outros cursos de autoconhecimento, ela fez o coaching. Além de aprender que comia de acordo com as oscilações emocionais, percebeu que as escolhas que considerava naturais, como tomar leite e comer pão, lhe caíam mal. Como Melissa é especializada em saúde da mulher, Adriana também aprendeu que tipo de alimento é mais adequado em cada fase do ciclo menstrual. “Hoje, faço escolhas conscientes. Até quando sei que algo vai cair mal, sei que ao menos é o que realmente quero naquele momento.”

As mudanças de hábitos acabam conduzindo a outros movimentos. Marcelo voltou para o judô e para a ioga. Adriana, também iogue, não dispensa a acupuntura, a terapia e a aula de canto. “Estou bem mais leve. E não estou falando só do peso: a cabeça também mudou”, diz Marcelo. Prova de que a busca pelo bem-estar pode começar num simples prato de comida.

 

Fonte: Revista Herbarium

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